Essa reunião dos “Governadores da direita” (30 de outubro), com transmissão pela tv, sobre a operação policial nos Complexos da Penha e do Alemão, causa-me absoluta repugnância.
Felizes e orgulhosos com o “sucesso” da operação , seus rostos não parecem rostos humanos. São robôs produzidos pela ideologia fascista/capitalista , nenhum sentimento, nenhum sinal de humanidade , nenhum respeito pela cidadania , pela dignidade da pessoa humana, pelos Direitos Humanos. Desrespeito integral às garantias da Constituição Federal de 88.
Fico pensando que o objetivo real dessa operação policial era mesmo matar o maior número possível de pessoas, alcançar um recorde de mortes nas chacinas produzidas pelo Estado.
O troféu dessa operação é o assassinato de mais de cem pessoas (quantas mesmo? quem são ? como foram mortas?). As fotos com os corpos enfileirados no chão são estarrecedoras. O seu símbolo é a cabeça cortada , pendurada na vegetação.
Extermínio, chacina, fascismo, massacre, genocídio, necropolítica; nenhuma palavra é capaz de expressar o horror absoluto dessa matança, dessa destruição do humano.
Marielle constatava, em texto publicado na primeira página do JB (Jornal do Brasil), no dia 16 de março de 2018, dois dias após o seu cruel assassinato: “E as mortes têm cor, classe social e território”. São os que devem morrer, os que não têm direito à vida.
Euclides da Cunha narra, em Os Sertões, que o cadáver de Antonio Conselheiro foi desenterrado , fotografado, e
“pensaram , porém, depois, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita”, e “uma faca jeitosamente brandida cortou-lha; e a face horrenda , empastada de escaras e de sânie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores.
Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam , no relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura...”.
O crânio de Antonio Conselheiro foi encaminhado à Faculdade de Medicina da Bahia, objeto de pesquisas sobre crime e loucura. Os triunfadores de hoje são esses que consideram a chacina do Complexo da Penha e do Alemão um “sucesso”.
Todos que participaram, de qualquer modo, dessa operação policial cruel - o Governador, os Chefes de Polícia, os policiais- , todos são cúmplices dessa centena de assassinatos.
Todos devem ser responsabilizados!
Parem de nos matar!
Sérgio Verani, desembargador TJRJ, aposentado; professor UERJ aposentado

