COP30: entre impasses globais, disputas políticas e a força dos povos na Amazônia

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém do Pará, entrou para a história como um dos encontros mais intensos, contraditórios e politicamente sensíveis das últimas décadas. No coração da Amazônia, o mundo se reuniu para discutir os rumos da transição ecológica, expor fraturas entre países e modelos econômicos, e revelar tanto a força dos movimentos sociais quanto a fragilidade da governança climática internacional. Se havia expectativa de avanços robustos, o que se viu foi um conjunto de tensões — geopolíticas, econômicas e tecnológicas — que impediram consensos amplos, mas também abriram novos caminhos. 

Na reta final, a Colômbia assumiu o protagonismo ao liderar uma coalizão de 35 países pressionando por um roteiro global concreto para a eliminação dos combustíveis fósseis. Irene Vélez Torres, ministra interina colombiana, sustentou que a Declaração de Belém deveria se tornar o marco político de uma aliança capaz de acelerar a eliminação de petróleo, carvão e gás. Em sua fala, anunciou ainda a Primeira Conferência Internacional para a Eliminação Global dos Combustíveis Fósseis, prevista para 28 e 29 de abril de 2026, em Santa Marta, destinada a consolidar esse caminho de descarbonização. Ao seu lado, o enviado especial do Panamá, Juan Carlos Goméz, reforçou que a COP30 precisava deixar um “mapa do caminho” operacional — caso contrário, perderia a chance histórica de apontar uma saída concreta para a crise climática. 

A coalizão também defendeu o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis e mudanças profundas no sistema financeiro internacional, ressaltando que a transição só será justa se considerar desigualdades históricas entre países. Em suas palavras finais, Vélez foi incisiva: “a luta continua”. 

O Brasil na COP30

O Brasil, anfitrião da COP30, oscilou entre protagonismo diplomático e contradições internas. Apesar de tentar se apresentar como liderança ambiental, o país enfrenta impasses estruturais como a expansão do agronegócio e a dependência da exportação de commodities. Para especialistas e movimentos sociais, as promessas de “economia verde” e “neutralidade de carbono” não podem ocultar a lógica de um modelo econômico que produz destruição ambiental e desigualdades profundas. A crítica recorrente é que não se trata apenas de mitigar danos, mas de transformar a forma como organizamos a vida — um desafio civilizatório mais amplo que tecnológico. 

A conferência também foi marcada por episódios dramáticos. Um incêndio na Zona Azul interrompeu temporariamente os trabalhos e intensificou a pressão sobre o chamado Pacote de Belém, cujo rascunho começou a circular na madrugada seguinte. A recepção foi majoritariamente negativa: organizações como o Observatório do Clima, 350.org, Greenpeace e coletivos científicos denunciaram a ausência de referências explícitas aos combustíveis fósseis e a insuficiência de metas para limitar o aquecimento global a 1,5°C. Embora o texto apresentasse avanços — como um mecanismo de transição justa, a adoção de indicadores de adaptação e o compromisso de triplicar o financiamento à adaptação —, falhou em articular esses pontos com o cerne da crise: a dependência global de petróleo, gás e carvão. 

Especialistas classificaram a omissão como uma “traição à ciência”, enquanto organizações alertaram que grandes produtores e consumidores de fósseis — mais de 80 países — barraram qualquer menção ao seu abandono. O resultado, segundo vários analistas, foi um texto “muito aquém” das necessidades climáticas e distante do discurso feito pelo presidente brasileiro na abertura da COP. 

Inteligência Artificial e clima

Outro eixo central de disputa foi o papel da inteligência artificial e das big techs na agenda climática. Empresas como Google, Microsoft, Alibaba, TikTok e Nvidia enviaram representantes a reuniões oficiais e privadas, defendendo soluções tecnológicas para mitigação e adaptação climática. No entanto, pesquisadores e ativistas denunciaram a contradição profunda da narrativa: data centers altamente consumidores de água e energia, aumento expressivo das próprias emissões dessas empresas e uso de tecnologias avançadas para ampliar a produção da indústria petrolífera. Foram raros os debates críticos sobre o tema na programação oficial, apesar de sua crescente relevância. Paralelamente, na Cúpula dos Povos e em atividades da sociedade civil, a pauta da IA apareceu de forma crítica e estruturada, incluindo denúncias sobre impactos em territórios indígenas e pedidos de moratória à expansão de data centers. 

O contraste entre os debates públicos e as negociações fechadas reforçou a percepção de que a COP segue sendo, em parte, um espaço também capturado por interesses corporativos — sejam fósseis ou tecnológicos. Em Belém, ativistas afirmaram que tanto a indústria do petróleo quanto as big techs atuaram como “grandes players de negócios”, negociando acesso a energia barata e recursos naturais, enquanto comunidades enfrentam escassez hídrica e desigualdade energética. 

Apesar dos impasses, a COP30 consolidou a sensação de que a luta climática depende cada vez mais da pressão popular, da articulação internacional dos povos e de novas alianças políticas que contemplem justiça climática, social e econômica. Diplomaticamente complexa e socialmente vibrante, a conferência foi um ponto de inflexão: ela não resolveu a crise, mas expôs que não há saída dentro do mesmo modelo que a produziu. 

A Associação Juízas e Juízes para a Democracia (AJD) participou ativamente da Cúpula dos Povos e acompanhou criticamente a COP30 por meio de sua conselheira Raquel Braga, que representou a entidade em debates sobre direitos humanos, justiça climática e democratização das decisões globais. Sua presença reforçou o compromisso da AJD com a defesa de um futuro justo e sustentável, construído com participação social e respeito aos povos e territórios.