
A diretora do Conselho de Especialistas dos BRICS-Rússia, Victoria Panova, na mesa inaugural/Imagem: Raquel Braga
A Cúpula Popular dos BRICS teve início na manhã desta segunda-feira (1) no Armazém da Utopia, na zona portuária do Rio de Janeiro, reunindo movimentos sociais, lideranças políticas, pesquisadores e representantes de mais de 20 países. O encontro, que se estende até quinta-feira (4), ocorre em um momento simbólico: a transição da presidência rotativa dos BRICS do Brasil para a Índia, o que reforça o caráter internacional do debate e projeta o papel crescente da articulação entre sociedades civis dos países-membro e do Sul Global.
A abertura foi marcada pela apresentação do coral Guajajara, da Aldeia Maracanã, que trouxe ao palco a força e a ancestralidade dos povos originários, gesto que seria posteriormente valorizado por diversas lideranças como síntese de soberania, memória e resistência.

Dilma Roussef, presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento, envia mensagem de vídeo aos participantes/Imagem: Raquel Braga
Um fórum em consolidação dentro dos BRICS
A mesa inaugural contou com José Reinaldo, do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (CEBRAPAZ), seguido por Elias Jabbour, presidente do Instituto Pereira Passos, e por Victoria Panova, diretora do Conselho de Especialistas dos BRICS-Rússia. Panova reiterou o apoio à consolidação da Cúpula Popular como um fórum permanente de participação social dentro do bloco — um passo que, segundo ela, reforça o caráter plural e estratégico dos BRICS no cenário internacional.
Também estiveram presentes Marcos Fernandes e Judite Santos, representantes do Conselho Civil dos BRICS e do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), além das vereadoras Marina do MST e Maíra Marinho, ambas centrais na criação da Frente dos BRICS no Rio de Janeiro.
A presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e ex-presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, enviou uma mensagem em vídeo saudando participantes e destacando a importância da incorporação de múltiplas vozes para o fortalecimento do BRICS como alternativa de desenvolvimento.
Em sua intervenção, Elias Jabbour comunicou que o prefeito Eduardo Paes manifestou a intenção de transformar o Rio de Janeiro em sede permanente dos BRICS e “cidade-sede do Sul Global”. Jabbour defendeu o bloco como agente de paz e acusou os Estados Unidos de violações sistemáticas de soberania, manifestando solidariedade à Palestina e à Venezuela.

Coral Guajajara, Aldeia Maracanã, realizou a abertura do evento/Imagem: Raquel Braga
Capitalismo, território e justiça social
A vereadora Marina dos Santos (PT-RJ), conhecida como Marina do MST, fez uma fala contundente sobre o capitalismo como “grande vilão” e destacou o peso simbólico do território onde o evento ocorre — a região do Cais do Valongo, maior porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas. Ela lembrou episódios recentes de violência estatal, como as chacinas no Complexo do Alemão e na Penha, defendendo que o BRICS oferece uma alternativa à ordem global centrada em guerras, desigualdade e financeirização.
Marina defendeu ainda a Reforma Agrária Popular como saída concreta para enfrentar a fome no Brasil e no mundo, ressaltando o papel da juventude na construção de projetos de futuro, e enfatizando a necessidade de conciliar justiça social e defesa ambiental.
A vereadora Maíra Marinho (PT-RJ) acrescentou reflexões sobre a crise social, política e econômica que atravessa o Brasil e o mundo, reforçando a necessidade de caminhos construídos pelos trabalhadores e ambientalistas. Ela relembrou os “3 Ts” de Papa Francisco — Terra, Teto e Trabalho — como pilares civilizatórios essenciais.
Representando a direção nacional do PCdoB, a deputada federal Jandira Feghali elogiou o papel de João Pedro Stédile na articulação para que o fórum popular se integrasse aos BRICS. Destacou a potência simbólica da abertura indígena, relacionando cultura e soberania, e criticou o neoliberalismo que, “a pretexto de saquear riquezas, invade países”.
Feghali denunciou o silêncio internacional diante de agressões a territórios venezuelanos e ao massacre na Palestina, defendendo a necessidade de transformar esse silêncio em boicote às potências que financiam e sustentam tais ações. A parlamentar também alertou para a “guerra cultural” movida pela extrema-direita, que considera um espaço central de disputa política.

João Pedro Stédile (MST) na mesa inaugural/Imagem: Raquel Braga
Conselho Popular dos BRICS
João Pedro Stédile, liderança nacional do MST e membro do Conselho Civil dos BRICS, saudou os representantes dos 21 países. Ele destacou que movimentos sociais de países como Chile, Colômbia, Venezuela, México e Argentina — esta última interessada em integrar o bloco, apesar da oposição do presidente Milei — foram convidados a participar.
Stédile relatou também o interesse de organizações sociais dos Estados Unidos em integrar o Conselho Civil, “apesar de Trump”, e afirmou que o Rio foi escolhido por seu caráter universal. Agradeceu o apoio da Rússia e de Victoria Panova à inclusão da sociedade civil e destacou que a construção do conselho popular é um processo impulsionado pela “efusividade do presidente Lula”.
Em sua fala, enfatizou a necessidade de enfrentar temas estruturais como imperialismo, hegemonia do dólar, fome, tarifaço e destruição ambiental. Criticou a incapacidade de espaços multilaterais como a COP de produzir medidas concretas diante da pressão do capital. Defendeu que os BRICS criem um Conselho Popular para combater a fome e a desigualdade global e concluiu evocando “um novo caminho da seda”, baseado na integração multilateral e na solidariedade entre povos.

Da esquerda para a direita: Raquel Braga (AJD), João Pedro Stédile (MST) e Mara Carvalho (ABJD)
Aula magna: crise de autoridade global e coerção econômica
Encerrando a programação da manhã, houve uma aula magna com o embaixador e sherpa dos BRICS, Mauricio Lyrio, e a professora Ana Garcia (UFRRJ e pesquisadora do BRICS Policy Center). Garcia recorreu a Gramsci para analisar a atual “crise de autoridade”, marcada pela ausência de liderança moral e intelectual capaz de guiar o sistema internacional. Ela ressaltou que a sociedade global assiste “sentada” ao genocídio em Gaza, enquanto o consenso é substituído por uma coerção que também se manifesta em mecanismos econômicos, como a “lógica da taxação”.
As atividades do primeiro dia seguem durante a tarde com debates, oficinas e encontros setoriais. A Associação Juízas e Juízes para a Democracia (AJD) participa da cúpula por meio de sua conselheira Raquel Braga.

Professora Ana Garcia na aula que fechou as atividades da manhã/Imagem: Raquel Braga

