3° Dia da Cúpula Popular dos BRICS debate nova arquitetura financeira e caminhos para o desenvolvimento do Sul Global

WhatsApp Image 2025 12 03 at 10.36.53Imagem: Raquel Braga

O terceiro dia da Cúpula Popular dos BRICS iniciou com uma mesa dedicada ao tema “Nova Arquitetura Financeira e Caminhos para o Desenvolvimento do Sul Global”, reunindo representantes do Brasil, Rússia, China e Indonésia. Participaram do debate Antônio Freitas, subsecretário de Finanças Internacionais e Cooperação Econômica do Ministério da Fazenda; Denis Melnik, diretor da ONG Sociedade de Historiadores do Pensamento Econômico e professor da Universidade de Altos Estudos em Economia da Rússia; Zheng Wei, professora da Universidade de Economia e Negócios Internacionais (China); e Dra. Hadriani Uli Silalahi, integrante do Conselho Civil dos BRICS e fundadora do Instituto BRICS da Indonésia. 

Desafios estruturais e possibilidades para o Sul Global 

Abrindo a mesa, Antônio Freitas apresentou o relatório “Participação Social na Trilha de Finanças do BRICS”, documento elaborado durante a presidência brasileira do grupo e disponibilizado ao público de forma online. Em sua intervenção, Freitas destacou que os recursos destinados ao desenvolvimento ainda são insuficientes e que o setor privado não se comprometerá, sozinho, a enfrentar desafios estruturais dos países do Sul Global. 

Ao citar a proteção climática como exemplo de tema global que carece de investimentos, o subsecretário ressaltou que o bloco também enfrenta retaliações externas, mas que ainda assim se constitui como alternativa concreta de cooperação. Ele mencionou a Convenção de Sevilha, bem como os avanços registrados na reunião do G20 na África do Sul, onde foi aprovado um documento sobre propósitos e cooperação mesmo sem a participação dos Estados Unidos. Para Freitas, o cenário atual está longe do ideal, mas representa “o possível”, reforçando a importância do multilateralismo, da cooperação intra-BRICS e do acordo de reservas contingentes entre os países-membros. 

WhatsApp Image 2025 12 03 at 09.28.55Exemplar do relatório Participação Social na Trilha de Finanças do BRICS/Imagem: Raquel Braga

Abordagens teóricas e críticas à ordem financeira atual 

Denis Melnik trouxe para o debate uma perspectiva histórica e teórica, elogiando a contribuição de Celso Furtado para o pensamento econômico mundial. Declarou-se leitor assíduo do economista brasileiro e destacou a atualidade de suas reflexões sobre dependência, subdesenvolvimento e soberania econômica. 

Na sequência, a professora Zheng Wei analisou a financeirização global sob o prisma geopolítico. Segundo ela, a atual expansão financeira funciona como um mecanismo de poder que reforça desigualdades, especialmente pela dependência do dólar nas transações internacionais. Para Zeng, a busca por uma multipolaridade financeira é central para o projeto dos BRICS, bloco que hoje reúne 42% da população mundial e 40% da produção global. Ela lembrou ainda que, em 2023, o PIB combinado do grupo superou o do G7, evidenciando a crescente relevância econômica do bloco. 

Tecnologia, inclusão e uma nova ordem financeira 

Representando a Indonésia, Hadriani Uli Silalahi apresentou iniciativas para estruturar sistemas financeiros mais justos e alinhados às necessidades dos países em desenvolvimento. Exemplificou com o uso da plataforma digital CRIS, desenvolvida para ampliar a autonomia tecnológica e a capacidade de inclusão financeira no país. Antes, explicou Hadriani, grande parte das transações na Indonésia dependia de códigos QR estrangeiros, o que dificultava análises econômicas e limitava a integração nacional. 

Com a adoção e adaptação da plataforma CRIS, a Indonésia avança na construção de um sistema paralelo, visando maior soberania e fortalecimento da comunicação interna. Para ela, ferramentas digitais como essa representam formas de empoderamento econômico e comunicacional, reforçando a cooperação Sul-Sul e projetando uma nova arquitetura financeira global a partir da periferia rumo ao centro. 

Assembleia Popular e celebração internacionalista 

Durante a tarde, o Conselho Popular dos BRICS promoveu uma assembleia dedicada a debater perspectivas, desafios e articulações futuras do bloco na esfera social. Encerrando o dia, participantes de diferentes países se reuniram em uma noite internacionalista, marcada por manifestações culturais, música e celebração da resistência dos povos. 

Presença da AJD ao longo da Cúpula 

Ao longo de todo o evento, a Associação Juízas e Juízes para a Democracia (AJD) esteve representada pela conselheira Raquel Braga, que acompanhou as atividades e debates da Cúpula Popular dos BRICS.