Nos últimos dias, a Casa Branca divulgou a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, um documento que redesenha a postura global estadunidense e que, segundo especialistas, terá impactos diretos e profundos na América Latina, com destaque para o Brasil. Diferente das doutrinas anteriores, que posicionavam os EUA como “polícia do mundo”, a nova estratégia concentra esforços na reindustrialização americana, na proteção de interesses econômicos estratégicos e na contenção de rivais globais como a China, deslocando o eixo de atenção para o hemisfério ocidental.
Segundo o geógrafo e presidente do Instituto Pereira Passos (IPP), Elias Jabbour, essa mudança representa “uma repaginação da Doutrina Monroe”, que coloca a América Latina novamente como território prioritário das energias estratégicas dos EUA. Para Jabbour, a divulgação desse documento passa despercebida por setores da esquerda, mas a leitura cuidadosa evidencia uma “ameaça existencial à soberania latino-americana”, especialmente em países como o Brasil, que ainda não internalizaram suas cadeias produtivas e dependem de tecnologia e insumos estrangeiros.
O uso da força e a expulsão de potências estrangeiras
O documento é claro ao prever o uso de força militar, oficialmente para controlar rotas de drogas e fluxo migratório, mas com implicações muito mais amplas para o controle político e econômico da região. Como ressaltou o jornalista Jamil Chade ao ICL Notícias, o texto fala em “expulsar potências estrangeiras da região” — uma referência direta à China, Rússia e possivelmente à influência europeia — demonstrando que o objetivo dos EUA não é apenas proteger fronteiras, mas exercer hegemonia de maneira abrangente.
Além disso, a estratégia prevê que a Agência Central de Inteligência (CIA) mapeie recursos naturais estratégicos na América Latina e estabeleça o monopólio do país sobre o fornecimento de tecnologia na região. Essa orientação deixa claro que, além de militar, o controle se estende à economia, ciência e tecnologia, limitando significativamente a autonomia dos países latino-americanos.
Jabbour enfatiza que essa abordagem representa uma “ameaça neocolonial”. “Os americanos falam abertamente em impedir que países estrangeiros adquiram ativos e minerais estratégicos na América Latina. Isso representa um risco sem precedentes à nossa soberania”.
O Brasil como alvo estratégico
O Brasil emerge como um ponto central dessa nova política. Além do interesse estadunidense em recursos naturais, o país enfrenta desafios internos de governança e segurança. A Operação Poço de Lobato, da Receita Federal, expôs esquemas de lavagem de dinheiro usando offshores e fundos localizados em Delaware, paraíso fiscal norte-americano, e fundos ligados à indústria de combustíveis. A operação evidenciou que redes criminosas transnacionais têm ramificações diretas nos Estados Unidos, o que motivou o contato direto entre o presidente brasileiro Lula e Donald Trump para troca de informações e colaboração em segurança.
Apesar dessa aproximação operacional, a doutrina dos EUA deixa claro que ideologia não é relevante: governos de esquerda ou direita podem ser tolerados, desde que atendam aos interesses estratégicos dos norte-americanos. No caso brasileiro, isso significa que qualquer iniciativa que afete empresas americanas ou interesses de Washington poderá ser encarada como hostil.
Para Jabbour, a situação exige uma mudança de postura da esquerda brasileira: “A bandeira precisa ser a da soberania nacional, do desenvolvimento econômico e da reindustrialização. Sem isso, o Brasil corre o risco de permanecer no limbo da história, dependente de potências externas e vulnerável a intervenções neocoloniais”.
Venezuela e a tensão regional
A nova estratégia norte-americana tem impactos diretos sobre a Venezuela, já considerada alvo prioritário. Nos EUA, multidões têm protestado contra uma possível intervenção militar, mas o documento indica que a região será tratada com prioridade máxima na política externa do país. Jabbour observa que apenas a Venezuela já está sendo ameaçada, e que este é um indicativo de que outros países latino-americanos podem enfrentar pressões semelhantes, principalmente aqueles com recursos estratégicos ou importância geopolítica elevada.
A América Latina como território estratégico
Especialistas alertam que a América Latina, historicamente vulnerável a influências externas, torna-se agora o centro de uma disputa geopolítica intensa. A nova estratégia estadunidense combina controle militar, econômico e tecnológico para garantir hegemonia no continente, enquanto mantém menor intervenção direta em regiões como Oriente Médio e Europa. A região, portanto, assume um papel central na competição global entre Estados Unidos e China, com risco adicional de conflitos localizados e pressão sobre governos nacionais.
A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) divulgou relatório que reforça essa preocupação, destacando que o crime organizado e a fragilidade institucional podem ser usados como instrumentos por potências estrangeiras para influenciar processos internos, inclusive eleições, tornando a soberania e a estabilidade política ainda mais vulneráveis.
O chamado à soberania e ao desenvolvimento
Para Jabbour, a lição é clara: o Brasil e a América Latina precisam reformular sua estratégia de desenvolvimento, internalizando cadeias produtivas, fortalecendo a indústria nacional e protegendo recursos estratégicos. A esquerda, segundo ele, deve centrar seu discurso e ação na soberania e no projeto nacional de desenvolvimento, sob pena de se tornar irrelevante frente à nova realidade geopolítica.
Ele afirma: “Estamos diante de uma realidade em que nossa soberania será, de uma forma ou outra, altamente ameaçada. A vida será muito difícil a partir de agora para quem não compreender a gravidade desse cenário”.
Um novo capítulo na política hemisférica
A divulgação da nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA evidencia que a América Latina volta a ser vista como um território estratégico prioritário, com impactos diretos sobre economia, segurança e política. O Brasil, pela dimensão e relevância de seus recursos naturais, emerge como um país-chave nessa disputa. A combinação de controle militar, econômico e tecnológico americana exige uma reflexão urgente sobre soberania, industrialização e políticas públicas capazes de garantir autonomia frente à pressão externa.
O documento evidencia que o século XXI será marcado por uma disputa geopolítica intensa, e que os países latino-americanos precisarão agir de forma coordenada para não perder espaço em uma nova ordem global, em que os EUA redefinem seus objetivos, suas alianças e sua visão sobre o continente. Como sintetiza Jabbour, “a bandeira é da soberania nacional, da centralização da questão nacional e da reindustrialização; fora disso, ficaremos no limbo da história".
AJD debate soberania nacional
Observando a relevância do tema da soberania nacional e os movimentos da política externa norte-americana, a Associação Juízas e Juízes para a Democracia (AJD) promoverá em fevereiro de 2026 um encontro intitulado “Soberania, Desenvolvimento Nacional e a Política Externa de Trump”. A atividade será a primeira de uma série de entrevistas que a AJD passa a realizar a partir do próximo ano, em sua sede em São Paulo, reunindo especialistas, juristas e pesquisadores para discutir os temas mais candentes da sociedade.

