Imagem: Raquel Braga
O segundo dia da Cúpula Popular dos BRICS foi marcado por críticas à atual governança global e por propostas de fortalecimento da cooperação Sul-Sul. Especialistas de diversos países analisaram os impasses da ordem internacional, defenderam maior pluralidade na formulação de políticas multilaterais e destacaram o papel estratégico da sociedade civil na construção de alternativas à hegemonia vigente.
A programação começou com uma mesa sobre os desafios da governança global no século XXI. O jornalista Breno Altman, fundador do portal Ópera Mundi, afirmou que o sistema multilateral vive um momento de esgotamento e que sua crise não deve ser superada no curto prazo. Segundo ele, a invalidação de contratos internacionais e o uso seletivo das normas por parte dos Estados Unidos evidenciam a fragilidade institucional e reforçam a unilateralidade. Para Altman, uma nova estrutura global só poderá surgir quando essa lógica tiver sido superada. Nesse cenário, os BRICS ganham relevância como um bloco contra-hegemônico capaz de enfrentar a ordem internacional em decadência.
Ah Maftuchan durante seu momento de exposição/Imagem: Raquel Braga
A discussão avançou com a participação de Ah Maftuchan, membro do Conselho Civil dos BRICS, sherpa do Civil 20 e pesquisador da PRAKARSA, centro de pesquisa e advocacy com sede na Indonésia, dedicado a políticas sociais, econômicas e de desenvolvimento sustentável. A organização produz estudos, formula propostas de políticas públicas e atua em cooperação com governos, parlamentos e sociedade civil no país e no cenário internacional.
Maftuchan destacou o crescimento da dívida externa dos países em desenvolvimento, que classificou como mecanismo histórico de subjugação, e alertou para o desequilíbrio tecnológico, que, segundo ele, aprofunda a desigualdade do conhecimento. Avaliou que a governança global atual se mostra decadente e pouco eficaz, contribuindo para maior insegurança e expansão de conflitos, o que reduz a capacidade dos países de investir em saúde e desenvolvimento. Defendeu ainda uma cooperação Sul-Sul mais assertiva e um papel crítico dos BRICS diante dos organismos internacionais.
No destaque Ahmed Hussein/Imagem: Raquel Braga
O presidente do Conselho das Organizações da Sociedade Civil da Etiópia, Ahmed Hussein, reforçou a necessidade de ampliar a inclusão no processo decisório internacional. Para ele, diferentemente da prática unilateral comum em grandes potências, os BRICS oferecem espaço para uma participação mais plural. Hussein apontou quatro desafios centrais para o bloco: desigualdade entre países, baixa cooperação multilateral, crise climática e déficits estruturais do desenvolvimento no Sul Global. Ele também criticou a ideia de sociedade civil moldada exclusivamente por referências ocidentais, que, segundo ele, ignoram formas legítimas de organização presentes em diversas regiões.
Representando a Universidade da África do Sul, Arina Smith defendeu que a sociedade civil pode apresentar alternativas ao modelo centrado na acumulação econômica e aos limites do multilateralismo tradicional. Ela abordou o dilema entre a crítica ao poder das big techs e a crescente demanda por tecnologia, e citou mecanismos de financiamento contracíclico usados em países africanos. Em comparação com iniciativas globais, Smith avaliou que a Nova Rota da Seda tem sido mais efetiva do que algumas propostas do G20, consideradas por ela “mais plásticas do que concretas”. A pesquisadora destacou ainda que os BRICS atuam como um mini multilateralismo, e reforçou que sociedades civis devem ter acesso tanto aos governos quanto às instâncias do bloco, contribuindo para a legitimação das suas políticas.
Arina Smith - Universidade da África do Sul/Imagem: Raquel Braga
O Diretor Geral do Instituto de Serviços Unificados, Major General B. K. Sharma, afirmou que encontros como o da Cúpula funcionam como um “microscópio” da agenda dos BRICS, permitindo gerar contribuições concretas. Ele defendeu como pilares do bloco a expansão da governança, a inclusão de novos países e a atuação dentro das organizações internacionais existentes, para fortalecer a legitimidade do grupo. Sharma destacou que o objetivo dos BRICS não é confrontar o Ocidente, mas questionar um sistema que exclui grande parte das nações. Para ele, a diversidade interna não representa fragilidade, mas sim uma força capaz de gerar consensos. “Não precisamos ser parecidos para trabalhar juntos”, afirmou, ressaltando o papel plural da sociedade civil.
A programação segue com uma série de debates ao longo da tarde. A noite está reservada para um momento cultural com roda de samba na Mangueira, encerrando o dia com uma celebração da diversidade que também marca a essência da Cúpula Popular dos BRICS.
Major General B. K. Sharma/Imagem: Raquel Braga

